A Escola Superior Agrária de Coimbra (ESAC) será palco, a 18 de novembro de 2026, do seminário “Sementes, Plantas e Outro Material de Propagação em Agricultura Biológica”. Organizado pela AGROBIO – Associação Portuguesa de Agricultura Biológica, o evento visa aprofundar discussões cruciais sobre o futuro da produção sustentável.
Resumo Rápido:
- O seminário em Coimbra reunirá especialistas para debater políticas públicas, investigação e regulamentação em sementes e plantas para agricultura biológica.
- Serão abordados aspetos de conservação, valorização e utilização de variedades tradicionais e certificadas, essenciais para a diversidade e resiliência do setor.
- A tarde será dedicada à regulamentação, controlo e certificação, pilares para garantir a qualidade e a confiança do consumidor em produtos biológicos.
O palco da inovação e conservação em agricultura biológica
O seminário, que decorrerá entre as 09:00 e as 17:15 na ESAC, não é apenas mais um encontro académico. Representa um ponto de inflexão onde a teoria da agricultura biológica encontra a prática da sua base fundamental: as sementes e o material de propagação. A escolha de Coimbra, um centro de excelência em formação agrária, sublinha a importância estratégica deste tema para o futuro do setor em Portugal e, potencialmente, na Europa.
Mas por que é que este debate sobre sementes e plantas é tão urgente agora? A resposta reside na crescente pressão sobre os sistemas alimentares globais, a necessidade de diversificar os nossos recursos genéticos face às alterações climáticas e a procura por alimentos mais saudáveis e sustentáveis por parte dos consumidores. A AGROBIO, ao organizar este evento, posiciona-se como um catalisador para a ação, reunindo os principais intervenientes para alinhar visões e traçar caminhos concretos.
As múltiplas facetas da discussão: políticas, investigação e regulamentação
O evento propõe-se a ser um espaço de esclarecimento, reflexão e debate. As discussões abrangerão desde as políticas públicas que moldam o acesso e a disponibilidade de sementes, passando pela investigação que procura novas variedades e métodos de propagação mais eficientes e sustentáveis, até à regulamentação que, por vezes, pode ser um obstáculo ou um facilitador para a inovação e a conservação.
A complexidade destas interligações é vasta. Por exemplo, políticas que favorecem a monocultura e o uso de sementes patenteadas podem, inadvertidamente, marginalizar variedades tradicionais, mais adaptadas a solos locais e resistentes a pragas específicas. A investigação, por sua vez, precisa de financiamento e de acesso a germoplasma para desenvolver soluções que respondam tanto às exigências do mercado como às necessidades dos agricultores. E a regulamentação, se excessivamente burocrática, pode sufocar pequenas iniciativas e dificultar a transição para práticas mais sustentáveis. Quem realmente beneficia quando estes aspetos não estão alinhados? Provavelmente, grandes corporações de sementes e agroquímicos, em detrimento da soberania alimentar e da biodiversidade.
Conservação e valorização: o tesouro das variedades tradicionais
Um dos focos centrais do seminário será a conservação, valorização e utilização de sementes certificadas e variedades tradicionais em agricultura biológica. As variedades tradicionais, muitas vezes passadas de geração em geração nas comunidades agrícolas, representam um património genético inestimável, moldado ao longo de séculos de adaptação a condições específicas. A sua preservação não é apenas um ato de respeito pelo passado, mas uma estratégia crucial para garantir a resiliência dos nossos sistemas alimentares no futuro.
No entanto, a conservação por si só não é suficiente. É fundamental que estas variedades sejam ativamente utilizadas e valorizadas. Isto implica criar canais de mercado que reconheçam o seu valor intrínseco, muitas vezes associado a sabores únicos, perfis nutricionais diferenciados ou maior resistência a condições ambientais adversas. A regulamentação atual, por vezes focada em padrões de uniformidade e rendimento, pode não acomodar adequadamente a diversidade e as particularidades das variedades tradicionais. Este é um ponto nevrálgico que a AGROBIO e os seus parceiros pretendem endereçar.
O rigor da certificação: garantindo a confiança do consumidor
A tarde do seminário será dedicada a um painel que refletirá sobre a regulamentação, controlo e certificação na produção e aquisição de sementes, plantas e outro material de propagação. Este é um aspeto crítico para a credibilidade da agricultura biológica. Um sistema de certificação robusto e transparente assegura que os agricultores que adotam práticas biológicas têm acesso a material de qualidade e que os consumidores podem confiar nos rótulos que atestam a origem e o método de produção.
O desafio aqui reside em encontrar um equilíbrio. Por um lado, a certificação deve ser rigorosa o suficiente para prevenir fraudes e garantir os padrões de qualidade que definem a agricultura biológica. Por outro lado, não pode tornar-se um fardo excessivo, especialmente para pequenos produtores ou para a utilização de variedades autóctones que podem não se encaixar facilmente nos modelos de certificação convencionais. A participação de especialistas como Isabel Fernandes (DGAV) e Ana Maria Barata (INIAV), juntamente com a perspetiva de atores do mercado como Micha Groenewegen (Sementes Vivas), promete trazer uma visão multifacetada e prática sobre como otimizar estes processos.
Quem está na sala? Especialistas a moldar o futuro
O painel contará com a presença de figuras proeminentes no campo da agricultura biológica e da ciência agrária. A participação de Isabel Fernandes, da Divisão de Variedades & Sementes da DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária), é crucial para entender a perspetiva regulatória e de políticas públicas a nível nacional. Ana Maria Barata, Coordenadora do Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV) no INIAV (Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária), trará o conhecimento científico e a importância da conservação do património genético. A inclusão de Micha Groenewegen, cofundador das Sementes Vivas, oferece uma perspetiva de quem está na linha da frente, a trabalhar diretamente com a disponibilização e promoção de sementes biológicas e tradicionais.
A presença destes especialistas, entre outros que serão anunciados, não é acidental. Eles representam as diferentes esferas de influência – governamental, científica e de mercado – que precisam de colaborar para que a agricultura biológica prospere. A diversidade de perspetivas é o que permite identificar não apenas os problemas, mas também as soluções mais eficazes e sustentáveis. O que não está dito, ou o que pode estar implícito, é a necessidade de uma maior articulação entre estas áreas para superar os desafios atuais, muitas vezes vistos como compartimentados.
Concluindo…
O seminário em Coimbra, focado em sementes, plantas e material de propagação na agricultura biológica, é um prenúncio de uma mudança necessária. Nos próximos 12 a 24 meses, podemos esperar um impulso renovado para a harmonização de regulamentações que favoreçam a diversidade genética e o acesso a sementes biológicas. A tendência é clara: a agricultura sustentável não pode depender de um portefólio genético restrito. A pressão por soluções resilientes às alterações climáticas e que promovam a soberania alimentar irá intensificar-se, forçando um reexame das políticas e práticas atuais.
Diante de tudo isso, o que o leitor deve levar consigo? Que a base de uma alimentação verdadeiramente saudável e sustentável começa no solo, nas sementes que escolhemos plantar. A agricultura biológica é um caminho promissor, mas a sua força reside na diversidade e na sabedoria acumulada. Apoiar iniciativas como as promovidas pela AGROBIO e estar informado sobre os debates em torno do material de propagação é um passo fundamental para quem deseja ver um futuro mais verde e resiliente. Qual o seu papel na preservação e promoção da diversidade de sementes na sua comunidade?
FAQ
O que é material de propagação em agricultura biológica?
Material de propagação, no contexto da agricultura biológica, refere-se a qualquer parte de uma planta utilizada para dar origem a uma nova planta. Isto inclui sementes, mas também estacas, bulbos, tubérculos, rebentos, e culturas de tecidos. Para que seja considerado em agricultura biológica, este material deve, idealmente, ser produzido de acordo com os princípios biológicos, ou seja, sem o uso de pesticidas sintéticos ou fertilizantes químicos. A escolha de material de propagação certificado como biológico é crucial para garantir que toda a cadeia produtiva respeita os padrões estabelecidos.
A importância de usar material de propagação biológico certificado reside na garantia de que a planta que virá a ser cultivada não foi exposta a substâncias nocivas durante o seu desenvolvimento inicial. Isto não só protege o ambiente, mas também assegura a qualidade intrínseca do produto final, que é o objetivo principal da agricultura biológica. A AGROBIO e eventos como o de Coimbra visam precisamente sensibilizar para a necessidade de um fornecimento robusto e acessível deste tipo de material.
Por que é importante debater sementes e plantas para agricultura biológica?
O debate sobre sementes e plantas é fundamental para a agricultura biológica porque estes são os pilares da produção alimentar. A diversidade genética contida nas sementes tradicionais e nas variedades adaptadas a diferentes ecossistemas é um recurso insubstituível para a resiliência face às alterações climáticas, a novas pragas e doenças. Sem acesso a um leque variado de material de propagação biológico de qualidade, a agricultura biológica arrisca-se a tornar-se homogénea e, consequentemente, mais vulnerável.
Além disso, a discussão abrange aspetos de soberania alimentar e de preservação do património cultural agrícola. As sementes não são meras commodities; elas carregam histórias, conhecimentos ancestrais e a capacidade de garantir a autossuficiência alimentar das comunidades. Ao discutir políticas, regulamentação e investigação neste domínio, procura-se garantir que estes recursos vitais sejam protegidos, valorizados e acessíveis a todos os agricultores biológicos.
Como funciona a regulamentação e certificação de sementes biológicas?
A regulamentação e certificação de sementes biológicas visam garantir que estas cumprem os padrões estabelecidos para a produção biológica. Isto geralmente envolve a verificação de que as sementes foram produzidas sem o uso de organismos geneticamente modificados (OGM), pesticidas sintéticos ou fertilizantes químicos. Os agricultores que desejam utilizar sementes certificadas biológicas devem procurar fornecedores credenciados e garantir que a origem do material é devidamente documentada.
O processo de certificação pode variar entre países e regiões, mas geralmente envolve auditorias por entidades certificadoras autorizadas. Para o material de propagação que não está disponível em quantidade suficiente ou em versão certificada biológica, as legislações de agricultura biológica geralmente preveem derrogações, permitindo o uso de material convencional sob certas condições. Contudo, a tendência e o objetivo são sempre aumentar a disponibilidade de material certificado biológico, como será discutido no seminário de Coimbra.
Quais são os benefícios de usar variedades tradicionais em agricultura biológica?
O uso de variedades tradicionais em agricultura biológica oferece múltiplos benefícios. Em primeiro lugar, estas variedades são frequentemente mais adaptadas às condições edafoclimáticas locais, sendo mais resistentes a pragas e doenças endémicas e exigindo menos insumos. Isto traduz-se numa maior resiliência e menor dependência de intervenções externas, alinhando-se perfeitamente com os princípios biológicos.
Adicionalmente, as variedades tradicionais contribuem significativamente para a biodiversidade agrícola, protegendo um património genético valioso que poderia ser perdido com a predominância de poucas variedades comerciais. Muitas vezes, estas variedades apresentam características organoléticas (sabor, aroma, textura) e nutricionais superiores, enriquecendo a dieta e oferecendo produtos diferenciados no mercado. A sua valorização pode também impulsionar economias locais e fortalecer a ligação entre o agricultor e o consumidor.
O que são sementes certificadas em oposição às não certificadas?
Sementes certificadas são aquelas que passaram por um processo rigoroso de controlo de qualidade, garantindo a sua pureza genética, sanidade e vigor. Este processo é supervisionado por entidades oficiais ou reconhecidas, que emitem um certificado atestando que a semente cumpre determinados padrões. No contexto da agricultura biológica, a certificação assegura que as sementes não são geneticamente modificadas e que foram produzidas seguindo as normas da produção biológica.
Por outro lado, sementes não certificadas podem não ter passado por estes controlos rigorosos. Podem ser sementes guardadas pelos próprios agricultores (sementes de agricultor ou variedades tradicionais) que, embora valiosas, não possuem a garantia formal de pureza e sanidade que a certificação oferece. Em muitos casos, a legislação biológica permite o uso de sementes de agricultor quando não há disponibilidade de sementes certificadas biológicas adequadas, mas a intenção é sempre promover a transição para o material certificado sempre que possível.
Quem organiza o seminário em Coimbra e qual o seu papel?
O seminário “Sementes, Plantas e Outro Material de Propagação em Agricultura Biológica” é organizado pela AGROBIO – Associação Portuguesa de Agricultura Biológica. A AGROBIO desempenha um papel fundamental na promoção e defesa da agricultura biológica em Portugal. A sua missão inclui a defesa dos interesses dos produtores e consumidores de produtos biológicos, a promoção de práticas agrícolas sustentáveis e a representação do setor em fóruns nacionais e internacionais.
Ao organizar este evento na ESAC, a AGROBIO visa criar um espaço de diálogo construtivo entre investigadores, produtores, decisores políticos e outros intervenientes do setor. O objetivo é consciencializar para os desafios e oportunidades relacionados com o material de propagação biológico, fomentar a investigação e a inovação, e influenciar a criação de políticas e regulamentações que apoiem o crescimento e a sustentabilidade da agricultura biológica em Portugal.
Fontes
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